O Mito Trágico de Salvador Dalí

  • Nuno Pinto Ferreira Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica
  • Carlos Farate Instituto Superior Miguel Torga; Sociedade Portuguesa de Psicanálise; Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade http://orcid.org/0000-0002-9246-0164
  • Henrique Testa Vicente Instituto Superior Miguel Torga
Palavras-chave: Salvador Dalí, mito privado, Angelus de Millet, criança de substituição, psicanálise

Resumo

Este artigo propõe uma leitura crítica da autoanálise esboçada por Salvador Dalí na obra “O mito trágico do Angelus de Millet” à luz da interpretação de uma dinâmica familiar sob o primado da fantasia do infans de substituição. Sugere-se que esta narrativa, elaborada segundo o método paranoico-crítico, sobrepõe mito pessoal e ficção, alegoria omnipotente e reinterpretação delirante da saga familiar trágica, de uma díade mãe-filho permeada pela evocação histórica do “resgate” fantasmático de um irmão morto nove meses antes do seu nascimento. Foram triangulados excertos do texto sobre o Angelus, dados biográficos e aportes de Bion sobre a importância dos mitos privados na construção da identidade. Conclui-se que Dalí ensaiou a aproximação a outra dimensão do imago materno, que os outros escritos e atos autobiográficos aparentam contradizer, mais precisamente a Mãe Antígona que “enterra” o corpo do filho in statu nascendi sob o olhar cúmplice e impotente do pai. Realça-se a importância de Gala como figura da Anunciação de destino trágico-grandioso, segundo a mística bíblica do “Filho Unigénito do Pai”, solução romanceada, de cariz surrealista e delirante, para aquela que terá sido a problemática central da sua existência, a condição de criança de substituição de um Outro temido e desconhecido.

Publicado
2019-12-31
Como Citar
[1]
Ferreira, N., Farate, C. e Vicente, H. 2019. O Mito Trágico de Salvador Dalí. Interações: Sociedade e as novas modernidades. 37 (Dez. 2019), 108-143. DOI:https://doi.org/10.31211/interacoes.n37.2019.a5.
Edição
Secção
Artigos